Aplicações da espiritualidade na vida comunitária, pastoral e missionária

É próprio da pessoa que cultiva a espiritualidade inaciana ir além (MAGIS), comprometer-se, empenhar-se por transformar a realidade, como expressão concreta do “em tudo amar e servir”. Com isso, não lhes passa despercebidos o contexto social e eclesial, com os impactos causados pelas mudanças climáticas, abuso do poder que gera guerra, a urgência da sinodalidade na Igreja e a busca pelo sentido da vida por parte de seus irmãos e irmãs.

O nosso olhar deve manter-se fixo na pessoa de Jesus, o nosso referencial. Encarnado, assume tudo o que é próprio do humano, participa da nossa vida. A sua humanidade revela a sacralidade de cada indivíduo. “A pessoa é o lugar e a manifestação encarnada do Deus do amor e do amor de Deus e seu e-vento de doçura na história dos homens” (Boff, 2002, p. 99).

Todo batizado é Igreja, ou seja, povo de Deus e, portanto, incumbido da missão de Jesus Cristo, cuja vida foi totalmente voltada para as pessoas mais necessitadas, vulneráveis, injustiçadas e excluídas religiosa e socialmente. Mario França de Miranda lembra que “a missão da Igreja é levar homens e mulheres a viver uma fé consciente e real, que vá além de práticas tradicionais ou de um catolicismo cultural e inoperante” (2024, p. 91).

Todos nós, enquanto Igreja, somos convidados a anunciar e testemunhar a Boa Nova da salvação em seu contexto social, sem se desvincular do “mundo”, comprometidos com a fé-justiça, serviço e reconciliação, conforme aponta o documento final do sínodo:

O Povo de Deus anuncia e testemunha a Boa Nova da salvação; vivendo no mundo e para o mundo, caminha juntamente com todos os povos da terra, dialoga com as suas religiões e as suas culturas, reconhecendo nelas as sementes do Verbo, e avança em direção ao Reino (2024, p.10).

O momento histórico atual é marcado pelo pluralismo, secularismo, emergência da subjetividade de cada indivíduo, degenerada pelo individualismo dominante. A Igreja, comunidade dos seguidores de Jesus é convocada à conversão ao Evangelho, que os conduzirá à coerência entre palavras e ações, e, sobretudo, a um maior cuidado com o ser humano ao invés de preocupar-se em primeiro lugar por doutriná-lo.

E pede de nós, cada vez mais, engajamento. Engajamento enquanto sinônimo de comprometimento com a causa de Jesus, ou seja, seguimento. Recordando-se que Jesus, mantendo-se fiel, coerente e obediente ao Pai, suscitou resistências, oposições e injusta pena de morte. Ele nos lembra que “o servo não é maior que o seu Senhor. Se eles me perseguiram, também perseguirão a vós” (Jo 15,20).

A nossa presença e atuação no mundo deve ser de um ser humano que encarnou a pessoa de Jesus. Que se cristifica para doar-se. Que a nossa presença, “cristificada”, promova vida em plenitude (Jo 10,10), segundo a práxis de Jesus, que “não veio para ser servido, mas para servir (Mc 10,45).

Como cristãos, “inacianos”, precisamos abrir as portas, derrubar as muralhas que resistem ao NOVO e deixarmo-nos tocar pelo AMOR. Jesus chega devagar e deseja fazer morada em nosso interior. Procuremos intuir o que ele pensava e nos deixemos invadir por sua mansidão e lucidez.

Para refletir e rezar:

  1. Como está o meu seguimento a Jesus, de maneira comprometida ou “à distância”?
  2. Sinto-me Igreja/Membro do Corpo Místico de Cristo ou visitante/turista de um templo?
  3. Estou disposto a seguir Jesus Cristo, Servo, amando – doando a vida?

¹ Wêdja Domingos de Melo é doutoranda em Teologia na Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). Com Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP). Pedagoga, com especialização em Gestão Educacional e em Orientação e Acompanhamento Espiritual. Orientadora dos Exercícios Espirituais de Santo Inácio, acompanhante espiritual e membro do Conselho Editorial da Revista Itaici.