Organizado pela Rede Servir, evento reuniu cerca de 230 participantes de diversas partes do Brasil
Nos dias 01 e 02 de agosto, a Rede Servir promoveu a quarta edição do Simpósio de Espiritualidade Inaciana, sob o tema “Discernimento e missão em tempos de crise”. Durante os dois dias de evento, cerca de 230 participantes, entre leigos e leigas, religiosos, religiosas e padres dialogaram sobre fé, consolação e caminhos de esperança diante de um mundo fragmentado e marcado por incertezas.
A programação teve três conferências, uma mesa-redonda em celebração ao jubileu de 50 anos das Comunidades de Vida Cristã (CVX) no Brasil e momentos de partilha em grupo. O Pe. Francys Silvestrini Adão, SJ, Provincial dos Jesuítas do Brasil também esteve no encontro para partilhar uma mensagem especial aos presentes.
O evento ainda incluiu um momento dedicado à Revista Itaici, publicação produzida pela Rede Servir e publicada por Edições Loyola, além de sorteios e depoimentos de colaboradores de diferentes realidades e obras da Companhia de Jesus no Brasil.
Um mergulho na tradição inaciana
O primeiro dia de Simpósio teve início com uma oração conduzida pelos Núcleos Inacianos. O momento convidou os participantes a silenciar e ouvir o próprio coração, pedindo a Deus a graça de reconhecer os sinais de sua presença.
Com o tema “Convidados a colaborar: mergulhando no coração da inacianidade”, a conferência de abertura foi ministrada pelo Pe. Alfredo Sampaio Costa, SJ. Durante a sua exposição, ele destacou que a colaboração é uma dimensão essencial da missão inaciana para enfrentar a complexidade e a subjetividade do mundo pós-moderno. Pe. Alfredinho, como é conhecido, ressaltou a urgência do diálogo fraterno e da superação de preconceitos no encontro com o outro.
“Diante de tudo que esse simpósio quer nos provocar sobre as nossas dificuldades, tempos de crise e tudo, a colaboração é a resposta. Só podemos levar adiante essa missão se nós colaborarmos uns com os outros, porque sozinho a gente vai ser engolido e não vai poder seguir adiante.”
Jubileu de 50 anos da CVX no Brasil
Ainda na manhã de sábado (01/08), a mesa-redonda “CVX 50 anos: Vivência laical da espiritualidade inaciana em comunidade” reuniu Ceci Mariani e Gina Torres, leigas que participam há muitos anos das Comunidades de Vida Cristã. Ambas fizeram um resgate histórico da CVX e destacaram como essa experiência de vida em comunidade contribuiu para sua caminhada de fé.
Gina Torres partilhou sobre sua trajetória em encontros e treinamentos de liderança voltados para a juventude e o seu primeiro retiro inaciano, em 1982, quando começou a conhecer mais de perto a CVX. Ela participou por um tempo da primeira comunidade nacional da CVX e hoje integra a comunidade Nossa Senhora de Nazaré, no Rio de Janeiro.
“Sempre tive muita clareza de que a fé cristã é fundamentalmente comunitária e que a CVX é uma proposta para isso. Tive o privilégio de experimentar isso na paróquia desde o grupo jovem e também na CVX local, regional, nacional e mundial. Agradeço muito ao Bom Deus por toda essa experiência”, disse Gina.
Ceci Mariani, da CVXavier, em São Paulo, pontuou que a CVX é uma vocação para leigos e leigas que se sentem chamados a viver a espiritualidade inaciana com o apoio de uma comunidade de partilha de vida. Também ressaltou que é um espaço fundamental para o discernimento comunitário, especialmente em meio a um mundo repleto de novas tecnologias, marcado por profundas desigualdades sociais e aumento da violência.
“O compromisso com o discernimento proposto pela espiritualidade inaciana pede que estejamos de olhos abertos, atentos e atentas ao rumo que Deus quer dar a essa vida e ao que ele quer de nós, as contribuições que devemos dar ao seu projeto para a toda a criação”, afirmou Ceci.
Espiritualidade que nasce em meio a um tempo de crise
No reinício das atividades, à tarde, o Provincial dos Jesuítas do Brasil, Pe. Francys Silvestrini Adão, SJ, dirigiu uma palavra aos participantes do Simpósio. Ele destacou que a espiritualidade inaciana faz parte de um grande guarda-chuva, que é a espiritualidade cristã, mas que, diferente de outras, ela nasce em meio a uma crise, fazendo uma alusão à ferida da bala de canhão que desestrutura totalmente o projeto de vida do jovem Iñigo de Loyola.
Refletindo sobre a vida do fundador da Companhia de Jesus, Pe. Francys destacou que Santo Inácio passou por diversos desafios ao longo de sua caminhada e que, a partir dessa compreensão e da capacidade de perceber como Deus o foi conduzindo, ele concebeu um método que perdura até hoje e que nos permite viver uma experiência semelhante, buscando ouvir e entender aquilo que Deus quer de cada um de nós.
“Essa espiritualidade da qual nós bebemos não pode ter medo das crises. Ela foi forjada em contexto de crise e, por isso, adaptada a escutar o que que Deus está falando em todas as circunstâncias. Isso que vamos aprendendo a experimentar, encontrar Deus em todas as coisas, é um sinal de grande maturidade espiritual.”
Pistas para encarar os desafios deste mundo
Seguindo o itinerário formativo proposto pelo encontro, a segunda conferência teve como tema “Espiritualidade Inaciana: perspectivas teológicas diante das crises contemporâneas”, conduzida pelo Pe. Jair Carneiro, SJ.
O atual secretário para Colaboração, Fé e Espiritualidade convidou os participantes a compreenderem as atuais crises, sejam elas socioambientais, tecnológicas, culturais e de fé, como oportunidades de discernimento e transformação.
Pe. Jair ofereceu pistas práticas, com base na espiritualidade inaciana, para nos ajudar a ler os sinais dos tempos e encontrar respostas cheias de esperança no seguimento de Jesus. Entre elas, ele enfatizou o acompanhamento espiritual, a pobreza evangélica, o discernimento e o desejo de "ajudar as almas", resgatando a experiência de Inácio em Manresa.
“A espiritualidade inaciana é muito mais do que um modo de rezar, mas um modo de estar e de ver o mundo. As dificuldades e os desafios estão aí, mas como é que eu posso estar no mundo com esperança? Então significa aprender a fazer a experiência de um Deus que se encarna. Jesus não nega a humanidade, mas salva desde dentro, tornando-se um conosco, apontando para onde a gente precisa caminhar”, disse Pe. Jair.
Após a conferência, os participantes foram encaminhados para partilhas em grupo, sendo convidados a dialogar entre si sobre os frutos e os desafios da caminhada e apontar como é viver a espiritualidade inaciana no cotidiano.
O dia terminou com um bonito momento de oração conduzido pela coordenação da equipe de Apoio aos Exercícios Virtuais Inacianos (AEVI).
Canal vivo de formação e aprofundamento da espiritualidade ianciana
O segundo dia de Simpósio começou com uma oração guiada pela equipe da Rede Inaciana de Juventude e Vocações - MAGIS Brasil.
Na sequência, em um momento dedicado à Revista Itaici, Walter Salles e o Pe. Laércio de Lima, SJ, atual Delegado para Formação, ressaltaram o papel histórico da publicação como um canal vivo de formação, aprofundamento e difusão da espiritualidade inaciana para leigos e consagrados em todo o país. Reforçaram ainda o convite para que todos os participantes conheçam a revista e mantenham o vínculo de formação continuada através das assinaturas e conteúdos disponibilizados pela Rede Servir.
Crise ecológica, inteligência artificial e a urgência do cuidado humano
Na terceira e última conferência, intitulada “Habitar a complexidade do nosso tempo: conflitos, crises e caminhos de esperança”, a teóloga e professora Maria Clara Bingemer promoveu uma reflexão sobre como a fé e a mística respondem aos desafios atuais. Dialogando com a filosofia de Byung-Chul Han e com o pensamento místico de Simone Weil, a conferencista analisou dois grandes focos de tensão da sociedade contemporânea: a grave crise socioambiental, que exige uma conversão ecológica e o combate à proliferação de "desertos interiores e exteriores", e o impacto acelerado da Inteligência Artificial, que impõe novas questões éticas sobre a identidade e a dignidade humana.
A palestrante alertou para os riscos de uma mentalidade utilitarista e hiperconectada que pode levar a uma nova forma de marginalização da pessoa humana, na qual o acolhimento, o afeto e a compaixão são puramente substituídos por sistemas anônimos e automatizados.
Como caminho de esperança, Maria Clara destacou a urgência de resgatar a capacidade de atenção amorosa ao próximo e o discernimento, reforçando que a espiritualidade e a tecnologia devem estar fundamentalmente a serviço da vida, da alteridade e da promoção do bem comum.
“Jesus nos ensinou que o amor sobrenatural ao próximo é a troca de compaixão e gratidão que ocorre como um relâmpago entre dois seres, dos quais um é dotado da condição de pessoa humana, de dignidade, e o outro está privado dela”, enfatizou Maria Clara.
Depois da conferência, a programação seguiu com um momento celebrativo , conduzido pela equipe AEVI, e com os agradecimentos finais dirigidos a toda a equipe organizadora e aos participantes.