A nossa missão iluminada pela vida de Jesus em Nazaré

A vida de Jesus em Nazaré, antes de iniciar o seu ministério público, pode iluminar a nossa vida, uma vez que o cotidiano nos estrutura. Jesus soube contemplar a vida simples, do dia a dia, e fazer-se aprendiz até tornar-se o “Mestre da vida”. Ele assumiu, verdadeiramente, a nossa carne, a nossa fragilidade, as nossas limitações. Habitou entre nós e aprendeu que as relações nos tornam pessoas e que a vida é bonita, é saborosa e pode ser plena. “Quando, porém, a vida cotidiana é vivida numa relação de amor a Deus e aos irmãos, ela não é uma vida vazia, mas é uma vida, de uma riqueza infinita e eterna” (Barreiro, 2012, p. 31).

Enquanto vivia a sua vida oculta em Nazaré, Jesus observava as pessoas, escutava as suas inquietações, sentia as suas dores, sensibilizava-se com o seu sofrimento. Toda a sua experiência familiar e comunitária germinava o que seria o centro de sua pregação e ação nos anos subsequentes. Discerniu que o seu ministério se embasaria na promoção da vida, sobretudo do pobre, pequeno, vulnerável, descartado, silenciado.

Tendo discernido a sua missão, anunciou-a na sinagoga de Nazaré e a concretizou durante os anos de vida pública: “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque ele me consagrou pela unção para evangelizar os pobres; enviou-me para proclamar a libertação aos presos e aos cegos a recuperação da vista, para restituir a liberdade aos oprimidos e para proclamar um ano de graça do Senhor” (Lc 4, 18-19).

Tudo isso foi possível porque Jesus exercitou os seus sentidos a favor de seu serviço aos irmãos e irmãs. Olhos para enxergar, ouvidos para escutar, olfato para cheirar, paladar para saborear, mãos para tocar, acariciar e agir. Enxergou por dentro a mulher trazida para ser apedrejada, sob a acusação de adultério (Jo 8,1-11); escutou o pai angustiado a pedir-lhe socorro em favor de sua filha que, aos doze anos, tinha a vida se esvaindo (Mc 5,21-24.35-42); tocou os olhos do cego de nascença com o barro misturado à sua saliva, trazendo-lhe a visão (Jo 9, 1-7); deixou-se tocar pela mulher que invadiu a casa de Simão, durante uma refeição, expressando-lhe amor e desejo de uma vida nova (Lc 7,36-50); não hesitou “trazer para fora”, restituindo-lhe a vida de seu amigo Lázaro, que “já cheirava mal” (Jo 11,17-44).

Jesus sentiu compaixão e solidarizou-se com o sofrimento alheio. Contemplando Jesus, para mais o amar e mais o seguir, percebemos que a sua sensibilidade foi sendo forjada no silêncio da carpintaria e na simplicidade de seu lar, ao lado de José e de Maria, seus primeiros mestres de vida, sintonizados com o coração do Pai, abertos às suas inspirações do Espírito Santo e comprometidos com o Filho.

Com José e Maria Jesus aprendeu o que significa ser Filho, obediente ao Pai, todo disponível ao outro. Internalizou que o seu alimento consistia na realização da vontade do Pai e que o sentido da vida está em ser alimento para os irmãos e irmãs, doando o ter e o ser, sobretudo. Nesse sentido, afirma Álvaro Barreiro:

Para Jesus, o único necessário era fazer a vontade do Pai, e ele sabe que está fazendo no exercício do ofício de carpinteiro. As mesmas mãos que usaram as ferramentas de carpinteiro e carregaram as vigas de madeira na oficina de Nazaré, durante os anos de vida pública, abençoarão as crianças, curarão os olhos dos cegos, os ouvidos dos surdos e a pele dos leprosos; abençoarão, partirão e repartirão o pão aos discípulos e aos famintos (Barreiro, 2012, p.34).

A vida oculta de Jesus em Nazaré, seguida de uma vida doada por meio de seu ministério, mostra-nos que dia a dia Ele vivia em comunhão com o Pai e amor aos irmãos e irmãs, sendo para nós o verdadeiro modelo de “contemplativo na ação”. Que a sua vida continue a nos inspirar e que o nosso seguimento a Ele se traduza em doação-serviço em favor, sobretudo, dos pobres, excluídos e marginalizados, em cada ato de nosso agir cotidiano.

Para refletir e rezar:

  1. Como estou encontrando Deus no cotidiano de minha vida?
  2. Vejo-me um contemplativo na ação? Como essa minha dimensão se revela?
  3. O agir de Jesus a favor dos menos favorecidos me interpela? Como respondo concretamente?