O silêncio perdido

Muitos de nós já experimentamos o quanto demora para nos acalmarmos interiormente seja para orar ou vivenciar um retiro de silêncio. Nós, acompanhantes, sabemos que somente no segundo ou terceiro dia é que o exercitante começa a se apaziguar. Que dificuldade é essa que afeta a todos nós, com raríssimas exceções?

Lendo “Falando sobre Deus” de Byung-Chul Han1, duas palavras me chamaram a atenção: obesidade e autofagia da alma. E é sobre isso que quero partilhar com vocês: a capacidade perdida do “tanto quanto inaciano” em nossas vidas, que por fim impactam na falta de espaço para a alma respirar.

Obesidade: não estamos mais falando de gordura corporal, seja por disfunção hormonal ou gula. No mundo de hoje, a obesidade que está estrangulando a alma fica por conta da voracidade com que se deseja mais e novas coisas ou informações. Norteia a sociedade atual o devorar excessivo e compulsivo de aplicativos com olhos que buscam e não olham, o tato viciado em teclas que nem mais percebe o que faz, a atenção perdida e ausente do presente momento que se vive. E assim, a alma vai se atrofiando e se distanciando de sua verdadeira essência.

Autofagia: auto = a si mesmo, phagein = “comer”, ou seja, comer a si mesmo. Processo orgânico em que células do corpo provocam a eliminação de células desgastadas ou envelhecidas. Uma faxina “celular” invisível e essencial. O jejum intermitente, exercício físico ou restrição calórica tendem a aumentar a autofagia corporal, pois o corpo já não encontra energia onde antes se fartava. O corpo utiliza a autofagia na busca do que precisa para manter sua condição.

Diz Byung-Chul: “Somente a alma que jejua é capaz de olhar. No jejum, ela põe em movimento um processo de autofagia que devora sua parte inferior comilona”. A alma desordenada, cega e compulsiva fica inchada e disforme. Em seu socorro há de se estabelecer uma “autofagia da alma” para restabelecer a essência de sua condição original.

O binômio obesidade e autofagia da alma, aliado ao ser humano que tenha sede e desejo de encontrar sua verdade mais profunda, há de ousar seguir o caminho de reordenação de seus afetos obesos e compulsivos através de um jejum autofágico: ter coragem de encontrar o verdadeiro sentido do silêncio em suas mais diversas nuances. O silêncio que aos poucos vai tomando diversos tons e sentidos. O silencio, que como um guia preciso, vai norteando e ensinando a distinguir o que vem de Deus, o que brota do ego, o que gera vida e o que produz confusão através das diversas vozes que nos habitam: reordenar os afetos desordenados para então procurar e encontrar a vontade de Deus em sua vida (EE1).